
@Dr. Crane/Dra. Quinzel (Flashback)
Segunda-feira. Como se o fato de Jonathan Crane ter passado a noite anterior toda em claro tentando resolver as últimas negociações sobre a entrega dos alucinógenos que havia pedido não fosse o suficiente, ele sentia tanta sede que começava a ficar enjoado. “Má notícia pra você, chefe: eu não trabalho com o que não conheço, cara”, a voz arrastada do traficante martelava em sua mente no mesmo ritmo em que suas têmporas bombeavam o sangue com força suficiente para fazer sua cabeça doer.
O psiquiatra deixou que um murmúrio sôfrego escapasse de seus lábios e largou o peso do corpo sobre a cadeira de seu escritório, tirando os óculos para conseguir massagear a ponte do nariz. “Má notícia para você, sr. Bartowski, você não tem uma escolha”, agora era a sua própria voz a ecoar em sua mente, o escárnio traduzido na expressão raivosa do outro homem, seu rosto tão vívido na memória de Crane que era como se estivesse revivendo aquela cena. “Não, espere, na verdade tem sim. Ou você cala a sua boca e faz o que foi pago para fazer ou vai acabar como um dos infelizes para quem vendeu toda aquela porcaria antes de Falcone te contratar.” O moreno fez uma careta, recolocando os óculos e correndo os olhos cansados pela oficina que já conhecia de cor. Detestava perder o controle, mas não via outra escolha senão abrir uma exceção quando se tratava daquela laia de criminosos.
No fim das contas, agir como um imbecil havia funcionado muito melhor do que todas suas técnicas anteriores, e foi com um sorriso de satisfação que Crane lembrou-se da expressão de medo do traficante, seus ombros encolhidos e a forma como seu lábio interior tremia à procura de uma resposta que nunca veio. Mas logo a dor de cabeça o lembrou de como sua garganta arranhava e parecia se fechar a cada vez que engolia. Talvez fosse hora para uma pausa; principalmente porque se sua encomenda chegasse hoje, o resto do seu dia seria, no mínimo, longo.
O refeitório era um local amplo, e, como todos os outros cômodos de Arkham, fedia a luvas de látex e abandono. Sobre um balcão havia um ventilador do qual não chegavam nem notícias. As mesas, que pouco a pouco iam sendo ocupadas por rostos conhecidos (mas nem por isso queridos pelo psiquiatra), estavam cheias de migalhas e garrafas vazias ou pela metade. Crane posicionou-se no fim da fila de funcionários para se servir, torcendo o nariz sem o mínimo esforço de esconder seu desprezo ao ler o prato do dia escrito em feias letras garrafais: enrolado de carne. Seu estômago pareceu dar uma cambalhota dentro de si, e o moreno mordeu o lábio inferior para conter a náusea quando avistou o balcão de bebidas mais ao fundo. Um outro médico posicionou-se atrás de Crane na fila e fez alguma piada sobre o frio, mas não conseguiu que ele abrisse a boca; apenas assentiu. Precisava tomar alguma coisa com urgência.
Desistindo da fila do almoço, Crane tirou uma latinha de chá gelado da usual prateleira e escolheu um lugar próximo à janela. O barulho alto do metal da latinha cedendo à pressão externa do ar o fez salivar, mas antes que pudesse encher o copo de plástico que carregara consigo da fila, foi abordado por uma voz algumas oitavas acima da zona de conforto de sua audição. Os olhos absurdamente azuis procuraram pela dona daquele tom que tanto se diferenciava do resto de Arkham, e quando o psiquiatra deparou-se com uma jovem sorridente, ele franziu as sobrancelhas. Harleen Quinzel. Claro. Gotham não era o tipo de cidade que te permitia o luxo de esquecer o rosto dos outros habitantes; o nome, provavelmente, mas o rosto? Nunca. Principalmente se o rosto em especial fosse o de uma garota loira que parecia transpirar todas as características desejadas pelo padrão universal da beleza.
– Harleen, claro, eu me lembro de você. – Forçou um sorriso fraco, observando a mais jovem tomar o banco à sua frente antes mesmo que ele permitisse. Preferiu deixar de fora a observação de que também se lembrava de suas notas fraquíssimas e que estava surpreendido por ela ter, de fato, conseguido se formar. – Vão indo. – Respondeu com um balançar de ombros. O que ela esperava que ele respondesse? Trabalhavam em um hospício, e não em um hospício qualquer, mas Arkham. Se você conseguisse passar o dia todo sem um paciente vomitar nos seus sapatos ou ameaça-lo com algum pedaço de mobília quebrado, você não havia trabalhado direito.
Harleen bebia o refrigerante de uva tranquilamente quando a quase não resposta de Crane foi entoada. Ela franziu o cenho com graça, mas acabou por aceitar a mesma sem fazer muitas ponderações sobre a discrição do psiquiatra. De fato a moça não esperava que este fosse ser tão sucinto com as palavras quanto havia sido, contudo ela não parecia se importar realmente se o homem havia dito muitas ou poucas informações sobre sua vida. Talvez, internamente, Harleen não se ligasse muito para terceiros. Tirou os lábios do líquido adocicado e começou a desembrulhar o sanduiche natural esfomeada e alegre. Um terremoto poderia dar início que ela não daria muito atenção a algo senão há si mesma. Não que egocêntria fosse sua característica mais marcante, mas há de se dizer que Harleen certamente tinha ciência de sua aparência encantadora. Era quase que cômico como ela era o único ponto iluminado no salão pálido e frio. Muitos fitavam a mesa ocupada apenas pelos dois e a distinção da jovem afetava todo o ambiente sombrio. Ela prosseguiu dando uma mordida no alimento que tinha em mãos com educação e calma mastigando sem pressa e engolindo em seguida. – Bem, comigo as coisas também estão “indo”. – Disse com certa comicidade no tom de voz deixando um sorriso simples escapar dentre uma olhadela turva para Crane. Ele não havia perguntado nada para a jovem, porém esta de fato estava com vontade de falar de si mesma quando sentou-se perto do rapaz. Cabia a Crane apenas ouvi-la. – Digo, agora elas de fato estão “indo” para algum lugar! – Completou-se com uma risada suave dando outra mordida no sanduiche. Estava de fato gostoso. Dar o mínimo de atenção a Harleen já era algo que a animava loucamente. Ela era uma pessoa muito solitária e não tinha familiares ou amigos os quais convivia. - Dei muita sorte de conseguir esse emprego. Sabe como é sempre tive uma queda por personalidades mais… Extremas. Isso atrelado ao fato de que trabalhar aqui é algo bem desafiador não poderiam me deixar menos entusiasmada. Alias, ouvi que é vice-diretor chefe. Deve ter bastante orgulho disso. Eu teria se fosse comigo. Ser tão novo e ter tanto sucesso. Acho que ainda vou ter que lutar muito para fazer você perder seu emprego. – Falou depressa fazendo inúmeras caretas simpáticas e distribuindo sorrisos sinceros. Harleen era tão carismática quanto falante. E ciente de que Crane não estava tão disposto a conversar ela fez questão de prosseguir seu almoço mais lentamente para falar um pouco com o homem. Afinal, Crane ainda era seu chefe e ser um pouco “puxa-saco” não faria mal a ninguém muito menos para Harleen Quinzel.
Oh, eu magoei os seus sentimentos ao falar que um criminoso - e não qualquer criminoso, veja bem, um que foi diagnosticado com personalidade psicopática por mais de 4 hospícios - se relaciona com os outros apenas pelo único propósito de manipulá-los e usá-los para o que bem entender?
Vamos fazer um teste então. Eu vou lhe dizer uma série de características que podem ser vistas em um indivíduo psicopata e mais uma, que não é ligada a esse indivíduo, e você vai me falar qual delas é a errada:
- desvio de caráter;
- ausência de sentimentos genuínos;
- frieza;
- insensibilidade aos sentimentos alheios;
- manipulação;
- egocentrismo;
- falta de remorso para atos cruéis;
- inflexibilidade com castigos e punições;
- acreditar no amor verdadeiro e em sentimentos puros, assim como aqueles que podemos notar em filmes da Disney.
Vamos, Dra. Quinzel, você tem um diploma pendurado na parede da sua sala, afinal de contas.
Não sou estúpida, Crane! Meu docinho me ama e não tenho dúvidas disso! Você não é ninguém para me dizer o contrário e pode listar quantas características quiser que nada vai mudar! J. tem apenas dificuldade de demonstrar o que sente. Mas, eu… Eu já vi ele sentir ciúmes e fazer muita coisa para não me perder e… Ele… Ele me ama sim! Bem, pelo menos eu acho… Digo, eu… Ele… Nós… PARA DE ME CONFUNDIR!!!
@Dr. Crane/Scarecrow (Flashback)
O clima chuvoso e cinzento daquele dia provavelmente não permitiria que Harleen enxergasse o sol que já deveria atingir o todo do céu naquele exato instante. Ela estava sinceramente animada com aquele dia e nada poderia estragar seu bom-humor.Tinha tomado um banho bem quente e sua aparência estava naturalmente impecável. Pôs vestes que eram muito mais comportadas que o normal e cobriu-se com um casaco grande e escuro que a protegeria do frio que a cidade parecia relutar em emitir. Seus cabelos loiros estavam presos num coque baixo e sério enquanto sua pele possuía uma maquiagem fina deixando os lábios pintados de vermelho mais visíveis e proeminentes. Seu apartamento ficava no centro de Gotham e o bairro o qual vivia era de fato um local perigoso e visualmente desagradável. O aluguel era baixo e o apartamento em si não tão ruim. Harleen deixou sua morada e pegou um táxi para o Asilo Arkham, local o qual pretendia fazer história e fortuna como psiquiatra. O trânsito era pesado, mas ela não demorou a chegar ao local desejado. Era segunda-feira e a moça teria seu primeiríssimo dia no novo ambiente de trabalho.
Os muros eram altos e o arame farpado se misturava com os fios elétricos fazendo com que a prisão/hospício fosse quase que impenetrável. Foi deixava próxima a guarita de entrada e quando desceu do táxi não precisou usar seu guarda-chuva. O ambiente era vil e a morbidez apenas a deixava mais entusiasmada. O prédio era tão gelado quanto o bairro em que morava e foi essencialmente difícil tirar o casaco quando adentrou no saguão de entrada. Foi muito bem vinda pelas pessoas que trabalhavam na administração e os policiais viam-se muito sorridentes e abobados com a presença de uma jovem tão bela pelos corredores cheios de gritos e lamúrias de Arkham. Outra psiquiatra apresentou-a a todas as alas e até mesmo a alguns pacientes perigosos. Recebeu um jaleco com seu nome e se apaixonou pelo próprio escritório. Estava tudo incrivelmente bem e a moça via-se enlouquecida pela ideia de trabalhar no Asilo.
Horário do almoço. A agora Dra. Harleen Quinzel havia passado parte da própria manhã organizando seu escritório e já estava completamente esfomeada àquela hora do dia. O salão o qual os empregados de Arkham almoçavam era iluminado e bem limpo. A comida via-se deliciosa e Harleen ficou internamente feliz por estar subindo tanto na vida. Pegou um sanduiche natural, uma garrafinha de refrigerante de cola e um pedaço grande de pudim de chocolate que parecia ser no mínimo maravilhoso. Atravessou o salão a largos e majestosos passos procurando uma mesa vazia. Pelo jeito a loira estava um pouco atrasada para o almoço e todos pareciam estar com as mesas totalmente ocupadas. Contudo, logo ao canto, uma mesa estava desocupada. Caminhou para até esta quando um homem a ocupou apenas alguns segundos antes de si mesma. – Você se importa se eu… – Iniciou com um sorriso simpático que se desfez instantaneamente. Entortou o pescoço com os segundos e abriu seu melhor sorriso. Era Dr. Crane. Havia sido seu professor em seu último ano como universitária e era uma pessoa muitíssimo conhecido quando o assunto era Psiquiatria. Era um ótimo profissional e Harleen sempre havia se interessado bastante pela matéria do professor. – Dr. Crane! – Exclamou com animação pondo sua bandeja sobre a mesa e erguendo a mão para um cumprimento gentil. – Sou eu. Harleen Quinzel. Dra. Harleen Quinzel agora. – Disse soltando a mão do rapaz apontando paro o nome no próprio jaleco com calma e simpatia. - Estive há alguns anos na Universidade de Gotham e tive aulas no meu último período com o senhor. Não imaginei que o encontraria trabalhando aqui. Digo, hoje é meu primeiro dia em Arkham e já estou apaixonada por esse lugar. Alias, Posso me sentar? – Perguntou quase que retoricamente já que se pôs a sentar na cadeira de frente para Crane no instante seguinte. Havia falado muito rápido e colocou um canudo na garrafa de vidro que já estava aberta. Deu um gole no refrigerante de uva umedecendo a garganta e sorriu outra vez. Era muito carismática. – Então, como vão as coisas? - Perguntou sinceramente interessada enquanto bebia mais do refrigerante roxo.

(via harleyandco)
Isso ou sua incapacidade ridiculamente alta de perceber quando os outros a estão manipulando.
Veja só Dr. Crane! Meu docinho não manipula nem a mim e nem a ningué… OK! Talvez ele manipule muitas pessoas por aí! Mas, comigo, é completamente diferente! ELE ME AMA E SOMOS PERFEITOS JUNTOS!

Não fale um absurdo tão grande quanto meu J. me manipular! Ele não faz isso! Nunca fez e… E… Pare de me deixar confusa! Você tem inveja de nossa alegria e do nosso amor… Droga, não me faça chorar…
(via blood-anddrinks)





